Entre o silêncio e a voz: uma análise crítica do conto “O menino que escrevia versos”, de Mia Couto

Entre o silêncio e a voz: uma análise crítica do conto  “O menino que escrevia versos”, de Mia Couto

Quando se pensa em África, que imagens frequentemente vêm à mente? As mais violentas, no sentido amplo do termo, não é? No entanto, a literatura do escritor moçambicano Mia Couto retrata todo esse universo de interdições e conflitos com ternura e sensibilidade, como se observa em “O menino que escrevia versos”.

Inicia-se o conto com o menino que escrevia versos sendo levado ao consultório médico pelos seus pais para investigar uma doença grave. E a doença do garoto era escrever poemas. O médico questiona se há antecedentes na família. O pai, “mecânico por nascença e preguiçoso por destino” (COUTO, 2013, p. 131), não entende a pergunta, e a mãe prontamente responde que não. Ele apenas “lia motores, interpretava chaparias” (COUTO, 2013, p. 131), mas não entendia de relações humanas; as palavras mais doces, que já pronunciara, foram ditas na lua-de-mel e eram as seguintes: “Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol” (COUTO, 2013, p. 131). A esposa sensibilizou-se com a comparação, pois “perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar?” (COUTO, 2013, p. 131). Percebe-se a comparação do ser humano com uma máquina, projetada para realizar funções, logo sequer poderia ter sonhos, sentimentos, emoções, enfim, viver plenamente. Além de levantar um questionamento acerca dos papéis sociais do homem e da mulher culturalmente definidos.

Assim que o pai descobre que o filho anda a rabiscar papéis com versos, acusa imediatamente a escola de influenciar tal prática e deseja retirá-lo do colégio, justificando: “Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual?” (COUTO, 2013, p. 132).

A mãe diverge do pai neste ponto: o estudo. Ela vê o mundo com uma percepção diferente, apesar de integrada ao meio rude, de escassos recursos, enfim, conformada com a realidade em que vive. Mesmo de uma forma bem sutil, percebe-se que deseja algo melhor para o filho. Observa-se, na atitude do pai, a ideia implícita de libertação/conscientização que a escola pode proporcionar aos indivíduos. Atente-se para o fato de que o menino se sente vivo quando escreve, sonha, liberta-se das amarras opressoras. Por outro lado, seus pais vivem o dia a dia sem expectativas de melhora, sem esperanças e sem sonhos. Faltam-lhes esses elementos fundamentais ao ser humano que dão um sentido à vida.

Além disso, o fato de um menino ser poeta é visto com certa resistência pelos pais, o ideal seria demonstrar virilidade. Apesar das intensas transformações sociais, ainda persiste essa visão. Talvez tenha uma fundamentação histórica cuja formação de meninos e meninas era diferenciada. Ou, simplesmente, haja uma possível explicação nas relações interpessoais. Corroborando essa discussão, Stuart Hall afirma (2006, p. 11):

 

A identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o “eu real”, mas este é formado e modificado num diálogo continuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que esses mundos oferecem.

 

À medida que interagimos com mundo que nos cerca, modificamo-nos. Portanto, quanto mais isolado o grupo social permanecer, as mudanças são mais lentas. E a literatura possibilita questionamentos acerca de assuntos diversos. Duas visões em um mesmo cenário encontram-se, revelando uma sociedade em transformação, onde já não há mais lugar para silêncios e silenciamentos, como se observa no comportamento do filho que é sensível, sonhador, mas questionador. Faz de suas experiências vividas matéria literária. Isso fica-nos claro no fragmento de diálogo entre o médico e o menino:

 

– Dói-te alguma coisa?

– Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspende a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Severina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:

– E o que fazem quando te assaltam as dores?

– O que melhor sei fazer, excelência.

– E o que é?

– É sonhar. (COUTO, 2013, p. 132-133).

 

Diante de tais afirmações, a mãe castiga o filho com “uma chapada na nuca” (COUTO, 2013, p. 133) e continua repreendendo-o: “Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe!” (COUTO, 2013, p. 133). Mas o menino defende-se: “longe, porquê? Perto o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho” (COUTO, 2013, p. 133).Num universo marcado pela pobreza, fome e violência, não era permitido sonhar. É interessante assinalar que ele não era silenciado pelos pais. Isso surpreende até o médico. Mas o doutor enfada-se e diz que ele precisa é de um psiquiatra.

Após a insistência da mãe, o médico fica ao menos com o caderninho de versos para fazer um diagnóstico. Aí o médico percebe a complexidade da situação, a escrita era uma forma de desabafo diante de uma realidade tão perversa, preconceituosa, excludente; talvez fosse a forma encontrada de integrar-se ao mundo. E ele afirma ao médico “Isto que faço, não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver” (COUTO, 2013, p. 133). Enfim, escrever é viver, e querem retirar o fio de vida do menino. Sendo assim, o médico opta por interná-lo em sua própria clínica, pois é uma maneira de mantê-lo vivo, mas até quando? O papel da mãe é marcado por forte dualismo: concorda com o pai sobre o fato do menino ter uma doença grave, no caso, escrever; ao mesmo tempo que se preocupa, deseja que ele estude, desespera-se diante da impossibilidade do médico ajudá-lo, e também quando o médico diz que é um caso de internação, devido à falta de recursos. No entanto, não é capaz de romper as amarras, deixando-o livre para sonhar e viver plenamente sua infância.

O meio em que vive o menino é tão repressor que ele se sente bem afastado da família que representava uma vida sem sonhos e ambições, recluso em um quarto no consultório, onde passa os dias lendo seus versos para o médico. O médico interna-o não por motivos de saúde, mas para ouvir o que se passa no coração da criança. Por fim, crianças tantas vezes à margem, na narrativa, ganham voz através do menino.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios: – Não pare, meu filho. Continue lendo… (COUTO, 2013, p. 134).

E a magia da literatura permeia a história, mesmo diante de um ambiente hostil como o que vive o menino, possibilitando-nos (re)pensar o mundo em que vivemos.

 

Referências

COUTO, Mia. O menino que escrevia versos. In: ______. O fio das missangas. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

 

Colunista Fabiana Lessa

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