Shakespeare, Dante e Cervantes: Os Pilares da Literatura Moderna.

Shakespeare, Dante e Cervantes: Os Pilares da Literatura Moderna.

Quando o assunto é a grandiosidade literária, ou mesmo quem viriam a ser os maiores nomes da literatura, o assunto é no mínimo polêmico. Há quem aceite que Homero é o pai da poesia, ou talvez o posto fique para Virgílio: dois colossais nomes na epopeia.

A respeito de quem seriam os fundadores da literatura moderna, podemos ponderar segundo o razoável pensamento do literato Harold Bloom, quando este disserta que a constituição geral da literatura se dá através da influência que um nome exerce sobre o outro. Pois bem, munido desse conceito, procuremos a partir da análise da obra destes três grandes nomes: Shakespeare, Dante e Cervantes, compreender como a literatura dessa tríade pode ter fundado a poética de nosso tempo.

Eu destaco esses três nomes já em função dos três principais gêneros narrativos: o drama, a poesia e o romance. Representado respectivamente por cada um desses cânones.

Pois bem, segundo o poeta e crítico americano T.S Eliot, Dante e Shakespeare são os fundadores da modernidade, não apenas na literatura. Podemos compreender que Shakespeare funda o pensamento e o comportamento do humano, e Dante forma a noção de como o ser é situado no mundo.

De modo geral, esse pensamento pode ser aceito como uma constituição geral do ser humano: tanto no espaço físico quanto no mental, mas essa é apenas uma das vertentes de interpretação das obras desses poetas, e está situada em campos de estudo filosóficos, psicológicos, antropológicos, sociológicos, dentre outros. Quando tratamos do estudo literário, o cânone exponencial de Cervantes deve constituir essa tríade.

Acredito que somente com Shakespeare não há uma divergência de pensamentos tão expressiva quanto a quem figura como o maior nome de seu gênero literário. Ainda que Marlowe, Ben Johnson, Molière e Gil Vicente sejam grandes nomes no Teatro, enquanto gênero narrativo, o bardo inglês figura como nome maior, tendo sua influência transcendido até mesmo as fronteiras da literatura, alçando até mesmo no pensamento psicanalítico de Freud, e diversas outras interpretações antropológicas de Hamlet, isso para citar apenas um, dentre tantos personagens riquíssimos de constituição psicológica e social. Ora, mas se Freud que ficou conhecido por teorizar e explicar tanto sobre a natureza humana, teve as suas fundamentações em Shakespeare, como poderia qualquer dramaturgo atual constituir uma peça, sem sofrer fortíssima influência do bardo inglês, se mesmo em atos triviais do comportamento humano, Shakespeare possui influência?

Dante Alighieri, creio que também seja um pensamento heterogêneo que o poeta de Florença seja o maior escritor em língua italiana da História, ainda que aquele italiano fosse arcaico, um tanto quanto distante do que conhecemos hoje.

A Divina Comédia (inicialmente só “Comédia”, recebeu o adjetivo 1 século depois, em crítica de Giovanni Bocaccio) desafia as epopeias de Homero e de Virgílio, quando pensamos em eleger a maior poesia de todos os tempos. Diferente de seu companheiro inglês, que só nasceria 243 anos depois de sua morte, aqui existe uma divergência quanto à sua hegemonia. Não seriam as lendas homéricas extremamente influentes nos dias de hoje? Temos até vírus de computador baseados em sua obra. É verdade. Mas dentre muitas questões de desempate, a então denominada “Questão Homérica” serve como um leve freio no poeta grego, e um generoso pé no acelerador do poeta italiano, nessa corrida pela hegemonia poética. Além do mais, Dante Alighieri causou influência até em questões religiosas, tendo noções de inferno, castigo, purgatório, redenção, paraíso, musa, platonismo, dentre outros fundamentos da modernidade que estão presentes em sua obra, e projetam ainda hoje sua influência na humanidade, em especial no ocidente. John Milton também seria um nome a se considerar, mas particularmente não o vejo tão alto quanto Dante, principalmente por dois motivos: sua obra-prima, O Paraíso Perdido, já é fruto da influência de Shakespeare (dramaturgo de seu país e de seu século) e apresenta clara alusão à Divina Comédia, observando a vida do autor isso fica cada vez mais claro, tendo em vista que a sua paixão pela literatura italiana era claríssima.

Chegamos então no expoente espanhol, misteriosamente falecido no mesmo dia que Shakespeare (23 de abril de 1616), e quando se fala em romance, falamos daquele que talvez seja o gênero narrativo mais produzido nos dias de hoje.

Miguel de Cervantes, em uma primeira vista aparece como o escritor que pôs fim a um estilo de escrita secular presente na Europa medieval: as novelas de cavalaria. Dom Quixote de La Mancha exterminou quase que eternamente os bravos mocinhos em seus alasões alvos em busca da princesinha presa na alta torre vigiada por um feroz dragão.

Diante das muitas características que esta obra pode oferecer em defesa de sua grandiosidade, ressalvo duas principais: a ironia e a loucura. A primeira se figura presente na ideia da ridicularização do movimento literário que na Europa acontecia: Cervantes apresenta um personagem que faz tudo o que os outros cavaleiros fazem, mas contra inimigos inexistentes, ou seria o contrário? Dom Quixote lutava contra moinhos, Ivanhoé lutava contra gigantes. Mas qual desses dois inimigos existia de fato?

O recurso narrativo da loucura é excelente para criticar a sociedade, pois nele é possível produzir um personagem que para o mundo é louco, mas que seus ideais podem estar corretos, causando uma confusão ou mesmo um caos entre os leitores: “Se o que é dito louco é assim tão são, então o louco sou eu?”.

Às vistas mais rasas, Hamlet apresenta uma narratologia quase que totalmente nesse pensamento: o príncipe dinamarquês se faz de louco para que a corte entenda a loucura que estão fazendo.

Pois bem, Liev Tolstoi (outro sério candidato a maior nome no romance) repudiava Shakespeare. O bardo inglês chegou a ser apresentado ao primeiro volume da primeira tradução inglesa de Dom Quixote e detestou, talvez porque pela primeira vez encontrou um escritor à sua altura. Homero, Virgílio, Petrarca, Camões são claríssimos candidatos ao posto de Dante neste artigo.

Ora, se coube a tais grandes nomes a discordância entre esses autores, por quê não pode meu leitor discordar de mim?
Independente de quem tenha fundado a literatura moderna, ela está fundada, e estes três mestres das palavras, sem dúvidas, deram grande contribuição para que isso acontecesse.

Colunista Igor Portelada

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *